
WALCYR CARRASCO

Capa e ilustraes de
Newton Foot


0 MENINO

(livremente inspirado na histria de Cyrano de Bergerac)

EDITORA MODERNA


DIRETOR GERAL
Ricardo Feltre
DIRETOR EDITORIAL
Srgio Couto
DIRETOR DE PRODUO
Eduardo Arissa Feltre
DIRETOR DE MARKETING Edaury Cruz
DIRETOR ADM. FINANCEIRO Jos Maria de Oliveira
DIRETOR DE PLANEJAMENTO Ricardo Arissa Feltre
COORDENAO EDITORIAL
Maristela Petrili de Almeida Leite
ASSISTNCIA EDITORIAL
Lucila Barreiros Facchini
COORDENAO DE PREPARAO
Luiz Vicente Vieira Filho
PREPARAO DE TEXTOS
Maria Odette Garcez
EDIO DE ARTE
Wandur Durant
CHEFIA DE ARTE
Valdir Oliveira
CAPA E ILUSTRAES
Newton Foot
EDITORAO ELETRNICA Eduardo Camargo do Amaral
DlAGRAMAO Regina Elisabeth Silva
COORDENAO DE REVISO Lisabeth Bansi Giatti
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Carrasco, Walcyr Rodrigues, 1951-
O menino narigudo : livremente inspirado na
histria de Cyrano de Bergerac / Walcyr Carrasco ;
capa e ilustraes de Newton Foot. - So Paulo : Moderna,
1993. _ (Coleo veredas)
Suplementado por ficha de orientao de leitura.
1. Literatura infanto-juvenil 2. Livros de leitura
I. Foot, Newton. II. Ttulo. III. Srie.
93-1542        CDD-372.412
ndices para catlogo sistemtico:
1. Leitura : Livros-texto : Ensino de 1 grau 372.412
2. Livros de leitura ; Ensino de 1 grau   372.412
ISBN 85-16-00891-6
Todos os direitos reservados
EDITORA MODERNA LTDA.
Rua Afonso Brs, 431
Tel.: 822-5099 CEP 04511-901 - So Paulo  SP - Brasil
1994
Impresso no Brasil


Para os poetas,
      que tornam o mundo mais bonito.

Sumrio
Histria de uma histria
Nariz no sorvete
Paixo  primeira vista
Rival e amigo
Poesias e gafes
Boca-de-leo
Cai a mscara
A vitria dos versos
      
Histria de uma histria
      A pea Cyrano de Bergerac, do francs Edmond Rostand, estreou em Paris no ano de 1897. De l para c, foi montada inmeras vezes, em todo o mundo, e teve diversas 
adaptaes para o cinema. A personagem, ornamentada por um enorme nariz e apaixonada por poesia, fascina a todos os povos.
      Rostand, o autor da pea, se inspirou em uma personagem real: o verdadeiro Cyrano nasceu em Paris, em 1619, e tambm foi autor de romances e peas teatrais, 
alm de clebre espadachim.
      Sempre fui apaixonado pela histria de Cyrano. Quando quis escrever este livro, resolvi beber na mesma fonte, contando do meu jeito uma histria imortal. Tambm 
quis mostrar como uma boa histria vive atravs dos tempos. H contos cuja origem j se perdeu em sculos remotos. Mas a fantasia de cada autor se encarrega de recont-los, 
de maneira diferente e original.
      Imaginei o que seria a vida de Cyrano, aqui, entre ns, nos dias de hoje. Tratei de recontar suas aventuras do meu jeito.  a histria de algum que se acha 
diferente. Por isso acredita que ningum  capaz de gostar dele. Todos ns, s vezes, temos essa sensao. Nos sentimos perdidos, abandonados, solitrios.
      E, nesse momento, tal como Cyrano, percebemos que os amigos esto a, ao lado, e que basta estender a mo. Sempre vai existir algum esperando um abrao e 
torcendo para encontrar um amigo como voc.
      Walcyr
      
Nariz no sorvete
      Era um nariz, mas que nariz! To grande que voc no vai acreditar. H narizes de todos os tipos. Miudinhos, delicados. Arrebitados. Achatados. Meio cados, 
em forma de guarda-chuva. Outros, como bicos de tucano. Redondinhos como o focinho de um coelho. Os narizes so to diferentes entre si que  impossvel dizer se 
um  mais bonito do que outro. O nariz  importante porque d o tom, a marca, o charme especial de um rosto. Um nariz bonito em algum pode ser estranho em outra 
pessoa. Duvida? Ento experimente. Pegue um retrato seu, recorte vrios narizes e v experimentando. Assim, vai descobrir que o que voc tem , no final das contas, 
melhor. A natureza, j se sabe, gosta da proporo. E cada rosto acaba ganhando um nariz que combina com ele.
      Mas, no caso de Cirano, a natureza exagerou. Foi um deslize, digamos. Era um nariz to grande que, s vezes, enganchava na asa da xcara quando Cirano tomava 
caf. Difcil era o dia em que Cirano no molhava o nariz ao tomar um copo d'gua. Quando entrava em algum lugar, primeiro entrava o nariz. S atrs dele vinha o 
Cirano, com ar de cachorro sem dono.
      Sofrido? Claro que sim! Imaginem! Uma vez ele foi num baile de Carnaval. Bastou chegar, tentaram puxar o seu nariz, pensando que era de mentirinha. Foi um 
vexame. Outra vez, numa festa, cumprimentou a aniversariante e enfiou o nariz no bolo. Na escola, quando sentava atrs de algum, volta e meia batia o nariz na nuca 
do colega da frente.
      Outro problema de Cirano era o nome. Onde j se viu um nome desses? E o pior  que ele tinha esse nome justamente em homenagem ao... nariz!
      Acontece que o av de Cirano era francs. Antes de mudar para o Brasil, bem no comecinho do sculo, ele tentou ser ator. Chegou a trabalhar em trs peas, 
numa cidade francesa chamada Marselha. Mais tarde, resolveu ser marinheiro, embarcou e, de viagem em viagem, veio conhecer o Brasil; parou no porto de Santos e nunca 
mais voltou para a Frana. Principalmente porque conheceu a av de Cirano, que tinha a pele bem morena e cabelos cor de cobre - como tm os descendentes de ndios 
com italianos. Quando era ator na Frana, o av de Cirano ganhou um apelido que o deixava envaidecido: Cyrano.  que ele tinha o nariz to grande que a todos lembrava 
a personagem da pea Cyrano de Bergerac. Tanto que ele chegou a interpretar a personagem Cyrano em um espetculo muito aplaudido na poca. O av, que se chamava 
Pierre, tornou-se marinheiro, desistiu de ser ator, mas continuou apaixonado pelo nome Cirano. Quando vov Beatriz disse que ia ter um filho, ele fez uma festa e 
garantiu que o nome seria Cirano. Nasceu uma menina, e vov Pierre at tentou botar o nome de Cirana. Mas ningum concordou. A menina, que seria a me de Cirano, 
chamou-se Teresa. Mas o neto no teve escapatria: ganhou o nome Cirano a pedido do av. Ai, que coisa! Como se isso no bastasse, ainda herdou o nariz, que, para 
o av, era motivo de orgulho.

      
      
      
      - Os homens da minha famlia sempre tiveram os narizes grandes - dizia ele, feliz, com o sotaque francs que nunca perdera inteiramente.
      Cirano adorava o av, que contava histrias do tempo em que era marinheiro. Mas o nome... que dificuldade! S quem tem nome difcil sabe o que . Cada vez 
que dizia o nome, via a expresso espantada de algum.
      - Como?
      - Ci-ra-no. E se pronuncia com sotaque francs, como se tivesse dois erres e acento circunflexo no o.
      - Francs? Mas ns no estamos no Brasil?
      Dia sim, dia no, escreviam o nome errado.
      Com um nome desses e um nariz daqueles, a vida de Cirano s vezes era bem complicada. Amigos, no tinha muitos. Namorada, tentou uma vez. Convidou a Gabi, 
linda garota sardentinha, para sair e tomar um sorvete. A Gabi ficou vermelha. Nunca tinha passeado com ningum, mas aceitou.
      Acabou a aula, e eles foram para a sorveteria do shopping. Um mais sem jeito que o outro. Cirano tinha guardado todo o dinheiro que ganhou no aniversrio, 
 espera daquele momento. Pediram dois sundaes.
      Vieram dois sundaes gigantescos. Altos como um edifcio, com uma cereja na ponta, calda de chocolate e marshmellow, com castanhas picadas. Um arraso. A Gabi, 
que era gulosinha, suspirou de emoo. Cirano estava aliviado: at ali, tudo ia bem.
      Durou pouco. Eles comearam a conversar sobre letras de msica. Cirano conhecia muitas de cor. Inclusive algumas de rock pauleira. Tinha at traduo do ingls. 
A Gabi tambm adorava msica: sabia uma poro. Cirano se entusiasmou:
      - Eu mesmo j fiz uma poro de letras - disse ele. - Poesia tambm. Quer que eu faa uma pra voc?
      Gabi at abanou o pescoo, de to dengosa:
      - Ser que voc consegue?
      Cirano disparou:
                 Gabi, Gabi,
                 S penso em ti
                 Nos teus olhos to bonitos
                 No teu jeito de sagi.
      Ela quase gritou:
      - Sagi? Eu no pareo sagi coisa nenhuma!
      Cirano tentou explicar que quando a gente faz poesia,  assim mesmo. As rimas vo chegando. Por isso, s vezes, os poetas demoram tanto para escrever. Fazem 
uma poesia, e depois mudam rima por rima, como se fosse um quadro que o pintor constri, pincelada por pincelada. Mas Gabi estava vermelha de raiva, e no estava 
nem um pouco interessada em entender essas questes.
      - Eu tambm posso fazer poesia - disse.
      E tascou:
                 Cirano tem um nariz 
                 Grande como uma mortadela!
      - Isso no  poesia, no rimou coisa nenhuma!
      - E da? Seu nariz continua grande, com rima ou sem rima nenhuma!
      - No fala do meu nariz!
      Nunca suportou que mexessem com o nariz dele. Era um ponto fraco, por assim dizer. Nervosssimo, Cirano esticou o pescoo na direo de Gabi. Na frente do 
pescoo, veio o nariz. E o nariz mergulhou no meio do sundae da Gabi. Ela gritou, horrorizada:
      - Tire o nariz do meu sorvete!
      Cirano puxou a cabea e o nariz voltou junto. Com a cereja presa no alto de um montinho de chantilly, precariamente equilibrado na ponta. Geladssimo. Nunca 
houve um nariz to gelado quanto o de Cirano. Gelado e melado. Eram castanhas picadas, marshmellow, calda de chocolate e sorvete de morango. Tudo pingando do nariz. 
Parecia um banana split!
      

      - Meu nariz est derretendo!
      Cirano gritou e correu para o lavatrio. Quando voltou, Gabi tinha ido embora.
      No outro dia, ele ainda tentou consertar. Intil. Pior. Gabi contou para todas as amigas a histria do sundae. Um desastre. Talvez por isso Cirano comeou 
a se interessar de fato por poesia. Percebeu que, para criar versos ou letras de msica, a gente precisa dominar as palavras. E isso s se consegue lendo bastante, 
e observando o jeito de escrever de cada poeta. Quem ouve uma cano bonita ou decora uma poesia no sabe o trabalho que h por trs. A msica e a poesia caminham 
juntas. Foi o que Cirano descobriu. Para no fazer vexame, como rimar Gabi com sagi, ele comeou a ler mais, cada vez mais, e com isso se apaixonou pela beleza 
dos versos e romances.
      Cirano tambm era muito solitrio. Amigo, amigo de verdade, s tinha um: Cristiano. Bom sujeito, o Cristiano. No colgio era o melhor jogador de basquete. 
De vlei e de futebol tambm. Fazia ginstica olmpica. J sabia dirigir automvel. Era completamente diferente de Cirano. Ningum entendia por que os dois se davam 
to bem.
      Cirano era bom aluno. Cristiano vivia atrapalhado com as contas. Certo dia, ficou horas para entender que um tero era menor que um meio.
      - Mas por qu, se dois  menor que trs?
      Haja explicao! No  que no soubesse. Afinal, essa era matria antiga. Mas s vezes Cristiano empacava, tinha um branco, e ele ficava sem entender as coisas, 
como um burro que no quer sair do lugar.
      Nas redaes, Cirano ajudava Cristiano. Em compensao, na hora do esporte, Cirano cometia deslizes. Como algum pode jogar basquete, se o nariz corre o risco 
de enganchar na cesta?
      A amizade dos dois, ningum entendia. Cristiano vivia cercado pelas garotas. Cirano, sozinho num canto. Cristiano nunca conseguia ler um livro inteiro. Cirano 
ajudava o amigo a fazer resumos.
      Mas era amizade pra valer. Uma amizade muito importante para Cirano. Era, por assim dizer, como uma ponte para o mundo. Ele se achava to feio, to diferente! 
Esquisito, solitrio. Cristiano era o oposto de tudo isso, sempre cheio de gente em torno dele. A amizade ajudava Cirano a se sentir menos solitrio. Por outro lado, 
Cristiano admirava a inteligncia de Cirano, as letras de msica que ele criava, a capacidade de ficar lendo horas e horas.
      A amizade era o mais importante da vida dos dois.
      Mas, um dia, Roxane mudou para a cidade.
      
      
Paixo  primeira vista
Eles se conheceram logo no comeo do ano. Cirano estava entrando na escola, carregando uma mochila cheia de livros que precisava devolver para a biblioteca, quando 
viu, de longe, aquela beldade. Isso mesmo, beldade. Pode ser uma palavra antiga, meio fora de uso, mas as palavras esto a pra isso mesmo: pra gente pegar e usar, 
como uma camisa ou um tnis. Roxane era linda, linda de verdade! Tinha uma pele amorenada e o cabelo preto, comprido, cacheado. Estava de p meio na entrada do ptio, 
meio sem saber pra onde ir. Cirano olhou pra ela e, no mesmo instante, seu corao comeou a bater mais depressa. Tum, tum, tum. Gente,  assim mesmo! Tem paixo 
que acontece desse jeito. Um olhar foi o que bastou. Cirano estava vidrado na garota.
      
      
      
      
      Mas era to linda assim?
      Para Cirano, era. A mais bonita do mundo! Claro que havia outras meninas no colgio. Mas aquela era especial. Uma paixo das brabas! Que no se explicava pela 
beleza. Alis, paixo no se explica.  uma coisa que, de repente, une as pessoas. Um mel. Que tal? Um mel, um charme, uma loucura. Verdade que nem todas as paixes 
so assim. Algumas demoram um tempo pra acontecer. As pessoas se conhecem, e da amizade surge o amor, que pode se transformar em paixo. s vezes, porm, ela ocorre 
de repente, de surpresa, como um balde de tinta caindo na cabea da gente. E mais: muitas vezes, acontece de um lado s. Foi assim com Cirano.
      De repente, ele sentiu um deslumbramento.
      A menina olhou pra ele, sem jeito. Ele perdeu o flego. Aproximou-se, nervoso.
      - Ooo-ooi! Vo-vo-vo-c  no-no-no-va a-a-a-qui?
      - A gente mudou pra cidade este ano - respondeu ela, meio constrangida, pensando que ele era gago.
      Comearam a conversar. O pai dela era juiz e, desde pequena, ela j tinha mudado vrias vezes de cidade.
      - Sempre  complicado - disse, depois de contar que se chamava Roxane. - As escolas so diferentes umas das outras e, s vezes, eu peno o ano inteiro pra ficar 
em dia com a matria.
      Enquanto ela conversava, Cirano percebeu que ela olhava fixamente para o... nariz dele!
      Cirano abaixou a cabea. Como se desse pra esconder um nariz! Ah, que vontade de poder tirar do rosto e botar no bolso!
      Mas os narizes no so como chiclete, que a gente tira da boca, faz bolinha e esconde. Nem ningum pode bancar o avestruz e esconder a cabea num buraco do 
cho. Ela comentou, surpresa:
      - Desculpe, mas  que nunca vi...
      - Nem eu - respondeu Cirano, disfarando. -  igual ao do meu av!
      - Imagino!
      Nem ele percebeu, mas era a primeira vez que no brigava nem ficava irritado por causa do nariz.
      - Puxa,  bem grando!
      - s vezes at eu acho que  de mentira.
      Era hora de voltar para a classe. Ela saiu correndo. Cirano foi  pensando, pensando: ser que um nariz  to importante?
      Mais tarde, viu Roxane de longe, cercada de garotas da classe. No teve coragem de se aproximar. Estava parado num canto, quando Cristiano se aproximou. Estava 
espirrando um pouco, mas tinha uma novidade:
      - Entrei na seleo de futebol do colgio!
      Cirano olhou: Roxane j tinha sumido com as novas amigas. Cristiano, de to animado, nem prestou ateno nas meninas. A seleo ia participar do torneio entre 
colgios. Falava, com os olhos brilhando. Cirano mal ouvia: s pensava em Roxane. Tremenda gata! Deu os parabns ao colega, e ficou pensando, pensando:
      - Ser que ela gostou de mim?
      Depois, foi conferir a imagem. O nariz mal cabia no espelho.
      - Sou feio demais!
      E no era s o nariz. Tinha um festival de cravos no rosto. Estava crescendo. Era magro e desajeitado. As mos e os ps tambm eram grandes, um pouco desproporcionais. 
Lembrou de uma foto do tio Arthur, irmo do pai, que morava na Itlia. Era bem o tipo dele: mesmo rosto, mesmo corpo. Mas todo mundo dizia que era lindo. Tinha sido 
modelo na juventude graas ao porte alto, magro, ao rosto de traos fortes e nariz marcante. Diziam que Cirano era parecido com ele, e que um dia seria charmoso 
como o tio.
      Um dia, um dia! Queria ser charmoso agora, j!
      Foi falar com a me pela dcima vez. Tinha lido uma reportagem sobre cirurgia plstica numa revista. Diminuir o nariz at que seria muito simples. Sabia de 
gente que fazia coisa muito mais difcil, como esticar o rosto para parecer mais nova.
      - Me, eu quero ir ao mdico. Quero deixar meu nariz pequeno, igual ao de todo mundo.
      A me riu, divertida. Alm de orientadora de creche numa grande empresa, a me de Cirano era pintora nas horas vagas. Tentou, como sempre, refletir:
      - Cirano, filhinho, voc ainda est crescendo. Seus braos esto crescendo. Seu corpo est crescendo.
      - Mas meu nariz est crescendo mais depressa do que o resto do corpo!
      A me riu e explicou tudo de novo. Que cada rosto tem seu jeito de ser: um nariz pequeno, delicado, pode ficar horrvel num rosto anguloso. O corpo tem suas 
prprias propores. Muitas vezes, tentar mudar, acreditando num ideal de beleza, deixa o rosto esquisito, desproporcionado.
      - Mas me, meu nariz parece um pimento!
      - Voc est crescendo, Cirano. Quando a gente comea a crescer, muitas vezes se sente feio, com o corpo esquisito. Pensa que  o nico?
      Ento a me explicou que muitas meninas, quando chegam  adolescncia, acham que os seios esto ficando grandes demais. Os meninos ficam to desajeitados, 
sem saber usar o comprimento dos braos, que derrubam tudo que vo pegar. Encerrou com um sorriso:
      - Beleza  coisa relativa, filho. Muitas vezes um nariz grande d um charme danado. Uma personalidade forte tambm empresta beleza  pessoa.
      E continuou por a: o relacionamento entre as pessoas no deve depender s da beleza ou qualquer atributo fsico. Importa o que a pessoa , como ela se relaciona, 
sua riqueza interior. Cirano nem conseguia ouvir, de to nervoso. "Conversa", pensava. "Conversa! Queria ver se minha me tivesse um nariz deste tamanho!"
      Pela centsima vez naquele dia, chegou  mesma concluso: era muito feio para namorar uma garota bonita como a Roxane.
      No dia seguinte, na hora da aula, sentiu o corao bater forte. Iria v-la! Mas pensou que no adiantaria se aproximar dela nem forar a amizade. Sentia tanto 
medo de ser rejeitado que preferia no ter esperanas.
      

      Durante a semana toda Cirano ia para a aula, e, no intervalo, ficava na biblioteca. No queria ver Roxane. Para piorar as coisas, seu melhor amigo, Cristiano, 
pegou uma gripe e teve de faltar s aulas. No tinha com quem desabafar. Mas um dia, quando estava lendo na biblioteca, ouviu uma vozinha.
      - Cirano!
      Ela! Tinha vindo pegar uns livros. Como ele, gostava de ler. Olhou o ttulo do livro de Cirano surpresa. Black-out, do Marcelo Rubens Paiva. Imediatamente, 
comearam a falar do autor. Ela s tinha lido Feliz ano velho, em que Marcelo conta sua prpria histria: o desaparecimento de seu pai, na poca da represso poltica, 
o acidente que o fez ficar paraplgico, preso numa cadeira de rodas, e como comeou a escrever. Roxane comentou, admirada:
      -  incrvel pensar que faz to pouco tempo que, no Brasil, as pessoas podiam desaparecer, ser presas... sem processo.
      Entusiasmado, Cirano falou sobre o livro que estava lendo: um grupo de jovens fica isolado numa caverna, e, quando sai, o mundo acabara. Eles ficam sozinhos, 
num mundo absolutamente solitrio. Roxane folheou o livro, pensativa:
      - Bem que eu gostaria, muitas vezes, de ficar sozinha no mundo.
      Cirano concordou:
      - J pensou como deve ser comear o mundo do zero, sem guerras, inveja, maldade?
      Roxane sorriu.
      - A humanidade faz muita coisa errada. Talvez fosse mesmo o caso de comear tudo de novo.
      A bibliotecria fez pssssss. Cirano e Roxane sorriram. Ele devolveu o livro e os dois saram para o ptio.
      - Gosto de ler poesia - comentou Roxane. - Sabe, eu acho que a poesia fala de sentimentos de um jeito que a gente no consegue falar normalmente. s vezes 
eu leio uma poesia e fico to emocionada que nem sei o que pensar. Outras vezes no entendo, mas gosto de ouvir as palavras batendo umas nas outras como uma msica.
      - Voc  diferente - disse Cirano.
      - Sou?
      - So poucas as garotas que gostam de poesia.
      -  que as pessoas gostam de ouvir poesia disfarada de msica. As letras do Chico Buarque, do Caetano Veloso so verdadeiras poesias.
      - T certo - lembrou Cirano.
      Cirano contou que tambm gostava de romances. Principalmente os de aventuras. Explicou que, quando a gente l,  como se viajasse para outro lugar.
      - O mundo inteiro acontece dentro da cabea da gente!
      Comearam a falar de livros, e a conversa no parou mais. No final das aulas, Cirano esperou Roxane e foi at o nibus com ela - ele morava perto da escola, 
e sempre ia a p para casa. No dia seguinte, trouxe um livro para emprestar a ela. A garota adorou. Passavam quase todos os intervalos falando sobre livros e sobre 
as coisas da vida. Cada um contava um pedao de sua histria.
      - Meu pai s vezes fica noites sem dormir, antes de um julgamento - ela contava. -  muito difcil decidir se algum merece ir para a priso.
      Cirano mal conseguia ouvir. Ficava observando enquanto ela mexia a cabea, o enorme rabo de cavalo se agitando como um chicote. Ah, que vontade de pegar aquela 
cabecinha e fazer um cafun! Mas ele ficava srio, se comportava.
      Durante alguns dias, Cirano quase no viu Cristiano. Uma tarde, foi visit-lo. Mas no conseguiu falar de Roxane. O amigo estava de mau humor com a gripe. 
Alm do mais, estava perdendo os treinos para o campeonato.
      - Mas a semana que vem, com gripe ou sem gripe, eu vou bater bola todas as tardes! - garantiu Cristiano.
      Cirano estava louco para pedir alguns conselhos sobre como conquistar uma garota, mas no teve coragem. Ficou sozinho com suas esperanas. E que esperanas! 
Se ela gostava tanto de conversar com ele... no seria um primeiro passo? Um dia, depois da, aula, Roxane foi  casa dele. Viu as pinturas da me de Cirano e gostou. 
A me dele tambm gostou de Roxane e convidou-a pra voltar quando quisesse. De noite, no jantar, comentou com o pai:
      - Seu filho est namorando.
      - No estou, no estou! - disse Cirano, furioso.
      - Tire o nariz da salada e pare de gritar - riu o pai.
      Era verdade. Cirano tinha enfiado o nariz no meio da alface. Agora uma folha estava grudada na ponta. Cirano puxou, irritado, depois limpou o molho com o guardanapo:
      -  s uma amiga.
      O pai sorriu. Tanto nervosismo s podia ser sintoma de amor!
      E era mesmo, paixo das brabas! Todas as noites, ficava pensando: "Como  que eu digo pra ela?"
      Como  que a gente diz?  difcil, no ?
      Todas as alternativas passaram pela cabea dele: "Eu te amo!" - como nos filmes e novelas. "Sabe que entre voc e a Madonna prefiro voc?" "Deixa eu dar uma 
mordida no seu dedo?" Horrvel!
      

      Todo dia, quando encontrava com Roxane, Cirano perdia a coragem, e ficava falando de livros e poesia. s vezes, depois de umas palavras, olhava pra ela sem 
ter o que dizer. Roxane estranhava:
      - Que foi?
      - No sei... estava pensando... numa letra de msica!
      - Qual?
      - Eu... ahn... esqueci!
      Continuava a conversar, sem jeito. Mas se mordia todo quando algum dos outros garotos da escola convidava Roxane para um jogo de video game, um bailinho. Ficava 
nervoso, esperando a resposta. Ela nunca aceitava.
      - No gosto muito de bailinho - dizia Roxane. - Prefiro cinema.
      Ela falava e ficava olhando para Cirano. Puxa, seria uma dica? Ser que ele deveria convid-la para um cinema? Mas era como se algum, uma fora incompreensvel, 
colasse sua boca. Ele queria abri-la e dizer, naturalmente: "Vamos ver um filme?"
      S que no conseguia. Ficava mudo como um peixe, de olho arregalado. Ela sorria, e o assunto terminava.
       noite, em casa, quase arrancava os cabelos: "Eu devia, eu devia ter dito pra gente ir ao cinema!"
      Ah, que raiva!
      Para se acalmar, pegava o caderno e copiava as poesias de que mais gostava. Tambm criava as suas. Em geral poemas de amor bem tristes, pois um dos sintomas 
da paixo  a vontade de dizer, escrever ou sentir coisas bonitas e melanclicas. Pelo menos enquanto a gente no  correspondido.
               Roxane, o amor
                choro ou namoro
               e tambm  cor.
               Cor suave, delicada,
               perto de minha amada,
               triste e escura, porm,
               quando meu mundo  ningum.
      Tudo poderia ter continuado assim, j que ele escrevia, mas no agia! Talvez, antes de tomar coragem, Cirano tivesse ficado com a mo calejada de tanto escrever 
poesias. Ou talvez enviasse alguma para ela, e se declarasse atravs de seus versos. Talvez, talvez!
      Mas a vida  movimento. De repente, tudo tomou outro rumo.
      
      
Rival e amigo
      Existem momentos na vida em que a gente passa da mais suprema felicidade ao mais terrvel dos humores. Foi o que aconteceu com Cirano naquela terrvel tera-feira. 
Como todos os dias, quando acabaram as aulas, acompanhou Roxane at o nibus. Notou que ela estava nervosa, esquisita. E que tinha uma mancha roxa no brao, logo 
acima do cotovelo.
      - Aconteceu alguma coisa, Roxane?
      Foi a senha. Ela parou, tensa:
      - Cirano, eu tenho uma coisa muito importante pra contar. Mas nem sei como comear!
      Ele ficou mudo. O que seria?
      - Eu posso confiar em voc? Se eu disser uma coisa, voc no vai achar que fiquei maluca?
      Cirano cada vez entendia menos:
      - Claro, Roxane. Pode falar.
      - Nem vai dar risada de mim?
      - Mas por qu?
      Ela suspirou fundo e disse, simplesmente:
      - Eu no paro de pensar numa pessoa.
      Os olhos de Cirano ficaram do tamanho de um prato, de to arregalados. Finalmente! Ela ia se declarar! Pensou: "Enquanto eu hesitava, ela tomou coragem!"
      Cirano sorriu, feliz. Ela continuou:
      - Sei que no  comum que as meninas confessem esse tipo de coisa. Mas voc vai entender. Estou me sentindo do jeito que contam nos livros!
      - Eu entendo. Sei como ! - disse Cirano.
      - Sabe? - ela ficou admirada.
      - Claro, entendo tudo que voc est dizendo. A gente sente o corao bater mais depressa, no sente? Sente o flego faltar. Sente um carinho to grande que 
parece maior que o mundo. A gente olha o cu, e o cu parece mais bonito. Olha a rua, e tem vontade de rir, de falar e chorar, tudo ao mesmo tempo!
      -  mesmo, A gente sente tanta coisa... Sabe, fico at confusa, porque... porque ele  to bonito!
      "Oh!", pensou Cirano. "Ela me acha bonito."
      - Ele  atltico, musculoso... forte. Eu me sinto to fraca perto dele!
      "Atltico, eu? Musculoso? Bem, talvez um pouco..." Ela continuou:
      - Mas ao mesmo tempo  suave, gentil, delicado.
      "Sim... eu fao esforo para ser gentil!"
      Nunca Cirano tinha se sentido to orgulhoso. Estava prestes a sapecar um beijinho na ponta do nariz de Roxane, quando ela disparou:
      - Se no fosse ele, eu teria sido pega pelos ladres.
      - Ladres?
      No incio, Cirano no entendeu direito. Que histria era aquela de ladres? Mas,  medida que ela foi falando, Cirano foi murchando, murchando... seu sorriso 
despencando... no era dele que ela estava falando. Simplesmente, Roxane estava encantada por... outro!
      Outro, sim! Outro! Um rapaz que ela nem conhecia. No dia anterior, quando estava voltando do dentista, ela viu dois meninos de rua andando em sua direo. 
Comeou a andar mais depressa, mas faltava uma quadra para chegar em casa. Os garotos vieram correndo. Um deles entrou na frente dela e disse: "Tira o tnis".
      Imagine, era seu tnis predileto! Tinha ganho no Natal. Pior do que perder o tnis era o medo de ser ferida. E um dos garotos estava com um estilete apontado 
para ela. Comeou a tremer de medo. De repente, do outro lado da rua, ouviu-se um grito: "Pega ladro!"
      Era um rapazinho alto e forte, que estava saindo do treino, numa quadra l do bairro. Ele gritou, os meninos de rua se assustaram. Imediatamente, mais dois 
ou trs saram da quadra. Os ladres deram um empurro em Roxane, que caiu e machucou o brao. Mas fugiram, de mos abanando. O tal que tinha gritado aproximou-se. 
Ele a ajudou a se levantar, a pegar a bolsa. Bastou um olhar para ela sentir uma forte emoo!
      

      
      - Alm disso, ele gosta de poesia como eu! Estava com um livro do Carlos Drummond de Andrade! - contou Roxane.
      O corao de Cirano foi ficando apertadinho, apertadinho, mas ele manteve a pose. Sorriu, fez jeito de amigo. Ela continuou, animada por contar sua histria:
      - A gente foi conversando at a porta de casa. Sabe o que descobri? Ele estuda aqui, no colgio! Depois lembrei que a gente j se tinha visto de relance. Mas 
ele andou faltando porque estava gripado. Agora melhorou, e est treinando fora do colgio!
      Ento Cirano sentiu um sufoco, um sufoco to forte que at parecia que o corao ia sair pela boca. Perguntou, sabendo o que ia ouvir:
      - E qual  o nome dele?
      - Cristiano - ela respondeu.
      "Cristiano! Meu melhor amigo! Por isso ele estava com o livro do Carlos Drummond!"
      Cirano tinha emprestado o livro a Cristiano porque o estava ajudando a repor a matria perdida com a gripe. E o safado tinha melhorado, mas continuava faltando 
s aulas. Teve vontade de gritar que Cristiano no gostava de poesia. Que Cristiano no tinha nada a ver com o jeito de ser dela. Que era por ele, Cirano, que ela 
devia ter se apaixonado.
      Mas, naquele momento, ele sentiu que nunca poderia dizer isso. Nunca contra um amigo. Que se as coisas eram assim, assim seriam. Lembrou de todos os momentos 
da amizade com Cristiano. E, por maior que tenha sido o sufoco, contou que era seu melhor amigo. Ela o crivou de perguntas. Era realmente sensvel, como ela pensava? 
Gostava de ler?
      Roxane tinha a cabea no lugar: estava interessada, mas queria constatar se Cristiano merecia tanto interesse. Ou seria apenas impresso, por causa do assalto?
      Cirano no traiu o amigo:
      - O Cristiano  um grande sujeito.
      E depois ficou olhando, enquanto ela pegava o nibus e ia embora.
      

      
      A partir da, tudo pareceu se transformar num pesadelo. De tarde, depois do treino, Cristiano passou em sua casa.
      - Tenho uma coisa incrvel pra contar! - disparou Cristiano.
      - Eu j sei!
      - No sabe, no. Conheci a garota mais fantstica do mundo!
      Cristiano repetiu toda a histria. Tinha dado uma fugidinha at a quadra. Na sada, vira o assalto. Gritou, salvando a menina. Quando olhou para ela, descobriu: 
estava apaixonado.
      - Eu sei - disse Cirano.
      Ento, Cirano engoliu em seco e contou tudo, desde o comeo. Falou de sua amizade com Roxane, que comeara enquanto Cristiano faltava s aulas. Desfiou todas 
as qualidades da garota. S no contou o quanto gostava dela. E deu um conselho:
      - Se voc quer namorar com ela, pare de faltar s aulas. A Roxane gosta de falar de livros, de poesia, de cinema. No banque o burraldo na frente dela!
      Cristiano coou a cabea. Esse era o problema, confessou. Estava com a antologia potica do Carlos Drummond de Andrade, que o Cirano tinha emprestado a ele 
para um trabalho de escola.
      - Ela ficou toda animada, e comeou a falar de poesia - disse Cristiano.
      - E voc, o que fez?
      - Disfarcei.
      Mas Cristiano sabia que disfarces no duram muito tempo. Queria que Cirano ajudasse. Ajudasse no qu?
      - A falar de poesia. Ela faz o tipo romntico. Voc me ensina umas poesias, umas coisas bem bonitas pra dizer.
      - Mas Cristiano, poesia no se aprende de repente. A gente precisa de tempo pra pensar... meditar. A gente aprende a gostar de poesia como quem aprende a ler. 
No incio, as letras parecem separadas, sem sentido. A gente junta e forma palavras. Com poesia  a mesma coisa. A gente vai lendo e, de repente, comea a apreciar 
os versos... as mensagens de cada poeta.
      Cirano mal sabia o quanto estava certo. Muita coisa na vida  assim: no incio, a gente nem gosta. Ento faz um pequeno esforo, e descobre o sabor escondido. 
Sempre vale a pena experimentar uma coisa que a gente no conhece.
      Mas a verdade  que Cristiano no estava para ouvir conselhos. Queria uma soluo rpida, para o dia seguinte. Depois do treino,  tarde, iria com Roxane  
lanchonete. Pretendia se declarar, ali mesmo, em frente ao balco de pastis e, quem sabe, ganhar um beijo!
      - Mas Cristiano, ela vai encontrar com voc na escola, de manh!
      - Eu me escondo, fico decorando poesias - disse Cristiano. - Estou apaixonado, Cirano, apaixonado! Por ela eu fao qualquer sacrifcio. No quero que ela se 
decepcione!
      - Cristiano, no vai dar certo!
      - Cirano, seja meu amigo! Me ajude!
      Cirano engoliu seco, sofreu. Mas nunca seria capaz de abandonar um amigo.
      Abriu um livro do Vincius de Moraes e comeou:
      - Se ela  romntica, Cristiano, tente decorar uma poesia como esta, que se chama "O escndalo da rosa".
      - Oba, se tem escndalo, eu vou gostar!
      Cirano suspirou: a aula estava comeando mal. Mas leu, pausadamente:
               Oh rosa que raivosa 
               Assim carmesim
               Quem te fez zelosa
               O carme to ruim?
               Que anjo ou que pssaro
               Roubou tua cor
               Que ventos passaram
               Sobre o teu pudor
               Coisa milagrosa
               De rosa de mate
               De bom para mim
               Rosa glamurosa?
                Oh rosa que escarlate:
               No mesmo jardim!
      - No entendi - disse Cristiano.
      - O poeta est falando das cores das rosas num jardim - explicou Cirano.
      - E que vantagem tem isso?
      - No tem vantagem nenhuma.  bonito. A gente l a poesia e v um jardim atravs das palavras, com rosas carmesins, escarlates, mate...
      - No  melhor sair na rua e olhar um jardim?
      - Mas o jardim que voc v no  o mesmo da poesia. O legal  que, lendo, voc constri um jardim s seu...
      - E da?
      Ah, como era difcil! Cirano perdeu a pacincia:
      - E da o qu, Cristiano? Por que voc precisa de tanta explicao pra gostar de poesia? O futebol tem explicao, por acaso?
      - U, a gente corre pra fazer gol.
      - O futebol  um jogo onde dois bandos de marmanjos disputam uma bola. Ningum pergunta por que esto correndo como doidos, de um lado pra outro do campo! 
No entanto, voc gosta. Com a poesia  a mesma coisa. E um outro tipo de exerccio. Com a cabea, com a imaginao.
      Cristiano abaixou a cabea, pensativo:
      - Tem razo. Mas eu nunca li poesia! Como vou aprender a gostar de uma hora pra outra?
      Cirano fechou o livro.
      - Cristiano, s tem um jeito. Desmarque o encontro na lanchonete.
      - O qu?
      - Diga que vai fazer uma surpresa, de noite.
      - Surpresa?
      - De noite, embaixo da janela dela.
      O rosto de Cristiano ficou iluminado:
      - Vou fazer uma serenata! Cantar eu canto! Um roquinho legal!
      - No, Cristiano. Rock  super, mas a Roxane  romntica. Vai gostar se voc recitar poesias.
      
      - De que jeito? Eu no sei nenhuma! Nem vou conseguir decorar de uma hora para outra!
      - Eu me escondo no jardim e fico soprando. Voc repete verso por verso.
      - Ser que d certo?
      - Pode ter certeza.
      - Ser que ela me beija?
      Cirano desviou o rosto, triste. Era duro suportar a paixo de Cristiano. Este nem percebeu; estava encantado com a idia.
      No dia seguinte, Cirano e Cristiano passaram todo o tempo na sala de aula, e s saram da escola depois de Roxane ter ido embora. No intervalo das aulas Cristiano 
desmarcara o encontro na lanchonete, dizendo a Roxane que iria fazer uma surpresa  noite na casa dela. Pedira que ela ficasse na janela do quarto quando ele chegasse 
ao jardim da casa. Roxane adorou a idia! Ela, por sinal, estava estranhando o jeito de Cirano, calado, distante. Tinha tanto para conversar! Por outro lado, Cristiano 
no saa de sua cabea! Nem podia imaginar que os dois estavam treinando para a grande noite de poesias!
      
Poesias e gafes
      Roxane estava assistindo  novela com os pais, quando ouviu um grito:
      - Roxane!
      - Quem  - perguntou a me?
      - Um amigo - disse Roxane toda vermelha.
      Em vez de correr para o jardim, como a me esperava, ela subiu para o quarto e saiu na janela, como tinha prometido. Oflia, a irmzinha, foi correndo atrs. 
O pai e a me se olharam, curiosos.
      L fora, Cristiano estava de p, com uma rosa vermelha na mo e um sorriso que mostrava todos os dentes. Atrs do muro, Cirano esperava, escondido, com o caderno 
de poesias na mo. Tinha selecionado as mais bonitas, as mais apaixonadas, como se fosse ele mesmo a recitar. Soprou, e Cristiano repetiu:
                 Mundo mundo vasto mundo,
                 se eu me chamasse Raimundo
                 seria uma rima, no seria uma soluo.
                 Mundo mundo vasto mundo,
                 mais vasto  meu corao.
      
      - Carlos Drummond de Andrade! Que bonito - disse Roxane.
      - , eu gosto muito dele - respondeu Cristiano.
      - Recite mais uma.
      - Diga que vai recitar "No meio do caminho" - avisou Cirano.
      - Vou recitar o "Caminho do meio" - disse Cristiano.
      - O qu?
      - "No meio do caminho" - lembrou Cirano.
      - O que aconteceu no meio do caminho? - perguntou Cristiano, nervoso.
      - Com quem voc est falando? - perguntou Roxane.
      - Eu... eu...
      - Diga que est lembrando a poesia baixinho - disse Cirano.
      - Estou lembrando a poesia baixinho - repetiu Cristiano.
      - Ah, bom! Ento recite.
      L foram os dois, palavra por palavra:
               No meio do caminho tinha uma pedra
               tinha uma pedra no meio do caminho
               tinha uma pedra
               no meio do caminho tinha uma pedra.
      A irm de Roxane desceu correndo as escadas e avisou os pais:
      - Tem um moo l fora dizendo que tem uma pedra no meio do caminho.
      O pai se espantou:
      - Uma pedra? De que tamanho?
      Pai e me saram para o jardim. Justamente naquele momento, Cristiano recitava uma quadra do Fernando Pessoa:
      A rosa que se no colhe
      Nem por isso tem mais vida
      Ningum h que te no olhe
      Que te no queira colhida.
      O pai de Roxane, que tambm adorava ler, comeou a aplaudir.
      - Temos aqui um vate! - disse ele, do jeito esquisito que costumava falar. - Venha, meu jovem rapaz, entre, coma um pedao de bolo conosco.
      - Entre, Cristiano, entre! - disse Roxane, animada.
      Cristiano no sabia o que fazer. Entrar, tudo bem. Mas, longe de Cirano, o que diria?
      - Entre, seu bobo - murmurou Cirano.
      Cristiano entrou, abraado com o pai de Roxane. Na sala, a me serviu um pedao de bolo com cereja, toda animada.
      - Que beleza, que beleza!  de rapazes assim que eu gosto, Roxane!
      - Como voc tomou o gosto pela poesia, meu rapaz? - perguntou o pai.
      - Eu... eu sempre gostei de poesia - disfarou Cristiano.
      - Qual o seu poeta predileto?
      - Pois ... todos... quer dizer... 
      Roxane ajudou:
      - Ele gosta muito do Carlos Drummond de Andrade.
      - ... pois ... dele eu gosto.
      Mas o pobre Cristiano no sabia o que dizer. Tentou mudar de assunto.
      - Tambm gosto de bater bola e de descolar uma tela.
      - Descolar uma tela? - estranhou o pai.
      - , eu gosto muito de filme de aventura. Principalmente os que tm muito tiro, ao. Eu adoro ver esses filmes com muito sangue escorrendo na tela!
      Roxane, o pai e a me se olharam, admirados. O pai comentou:
      - Curioso... voc tem gostos diversificados.
      Cristiano tentou enfiar mais um pedao de bolo na boca, quase engasgou. A me perguntou:
      - O que voc est lendo?
      - Bem... eu li o regulamento do jogo de futebol todinho na semana passada. Sei o que  pnalti, falta...
      Pai e me se olharam novamente, espantados. De repente, o rapaz, que parecia to intelectual, estava completamente diferente. Roxane tentou:
      - Romance, voc no est lendo nenhum?
      - Romance? Eu... eu... bem... eu no tive tempo de ler... mas a minha me est lendo um muito bom.
      - Qual?
      - No lembro o nome. Mas sei que fala sobre sexo. Acho que  a vida de um tarado!
      Vexame total! Cristiano foi ficando vermelho, enfiando os ps pelas mos. A cada pergunta, ele dava uma resposta mais absurda! Quando pde, escapuliu. Cirano 
estava esperando l fora.
      - Como foi?
      - Um desastre - comentou Cristiano, desanimado. - Eles ficaram falando de livros, de uma poro de coisas que eu no conhecia... quase morri de vergonha.
      Em casa, os pais de Roxane tentavam entender o que tinha acontecido:
      - Ser um caso de dupla personalidade?
      Roxane, entretanto, olhava o teto e pensava:
      - Como ele  romntico! E tmido!
      No dia seguinte, ela escreveu um bilhete, e mandou entregar a Cristiano, atravs de uma amiga. Ele ficou nervosssimo.
      
      
Boca-de-leo
      O bilhete:
Cristiano
     Nunca pensei que ia merecer uma homenagem to bonita como a de ontem. Quero ouvir voc recitar mais poesias, muito mais poesias!
     Mande um recado dizendo onde e quando a gente pode se encontrar.
Roxane

      Antes de continuar a histria,  preciso dizer uma coisa. Talvez voc esteja achando o comportamento de Roxane um pouco fora de moda. Esse negcio de mandar 
bilhetes, recados... pouca gente faz. Mas a Roxane era romntica, queria ter um amor como os dos filmes e romances. Um amor do jeito antigo. Quando a gente tem a 
idade de Roxane, de Cristiano ou de Cirano, muitas vezes quer as coisas depressa, no vapt-vupt. Mas saber esperar  uma arte. Aquilo que a gente constri ou conquista 
em geral tem um sabor especial.  assim at com comida. Certos doces so demorados, difceis de fazer. Mas o resultado  sensacional! Roxane era bem amadurecida. 
Ela estava interessada no Cristiano, sim, sem sombra de dvida. Mas tambm queria conhec-lo como pessoa. Na verdade, conseguia fazer uma separao muito difcil, 
at mesmo para os adultos: a diferena entre o que a gente v e o que a gente no v. Ela queria conhecer Cristiano como pessoa. Saber se ele era realmente legal, 
se ambos tinham os mesmos interesses. Se aquela atrao inicial tinha razo de ser.
      O problema  que no tinha, e Cristiano sabia disso. Ambos eram completamente diferentes. Ele no gostava de ler, no sabia a diferena entre um rabisco e 
um quadro. No fundo, Cristiano tinha uma coisa muito parecida com Cirano. Enquanto Cirano tinha complexo do nariz, Cristiano se envergonhava de sua dificuldade na 
escola, de algumas notas baixas, da dificuldade em se concentrar. Mas isso ele no confessava a ningum. E justamente por isso cometeu o maior erro do mundo! Caiu 
na conversa de Cirano.
      Seja dita a verdade: Cirano estava cheio de boas intenes. Sofria, mas fez de tudo para ajudar o amigo. S que do jeito dele. Essa histria de poesias, livros, 
declamaes, combinava com Cirano. Mas no tinha nada a ver com Cristiano. E o que comea errado, pior continua.
      Cristiano mandou um bilhete, inventado por Cirano. Era assim:
               Roxane
               Tenho um relgio parado,
               por onde sempre me guio.
               Pelo nosso encontro espero,
               se preciso, horas a fio.
               Tenho vontade de ver-te,
               mas no sei como acertar.
               Assim, se assim preferes,
               em casa vou te buscar.
               E no me digas que no,
               porque j sabes que ests
               bem junto do meu corao!
                                Cristiano
      Cristiano levou um susto:
      - O que vou fazer com este bilhete?
      - Copie com a sua letra e mande.
      - Mas eu... eu...
      - Ela vai adorar, Cristiano.
      - Voc acha?
      Cristiano leu o bilhete de novo:
      - Puxa, Cirano, como voc  inteligente. De onde voc tirou essa poesia?
      Cirano confessou:
      - Sabe, Cristiano, o Fernando Pessoa...
      - Quem?
      - O Fernando Pessoa, um dos poetas mais importantes da lngua portuguesa. Pois ... ele criou uma poro de quadras populares, bem gostosas de ler. Como aquela 
que voc recitou ontem. Eu li umas quadras e adaptei, para valer como bilhete.
      - Mas Cirano, ser que est certo... mexer na poesia dos outros... no  feio?
      - No, Cristiano. Eu apenas me inspirei nos versos dele... mas a gente pode brincar com poesia... como se fosse um jogo... A gente pega um verso daqui, outro 
dali, inventa uma rima... e se diverte... como quem joga baralho!
      - Ser?
      - Tente voc tambm!
      - Ah, no, Cirano... eu no tenho jeito pra essas coisas.
      - Todo mundo tem.  s aprender a se divertir. Veja... com os versos do Fernando Pessoa, e mais alguma coisa da minha cabea, eu inventei esse bilhete.
      - Voc  crnio, hem, Cirano?
      - Mande o bilhete depressa... que temos de planejar o encontro de amanh!
      O bilhete foi voando para as mos de Roxane. Quando ela o recebeu, ficou to feliz, to feliz, que o leu diversas vezes, e depois o guardou no meio de um livro. 
Em casa, a me at estranhou o jeito dela.

      - Que foi, Roxane?
      - Me, o Cristiano me mandou um bilhete to bonito! Todo em versos!
      A me de Roxane no era daquelas que ficam proibindo a filha de sair com amigos. Sabia que ela estava chegando na idade de namorar. Mas, sem entender muito 
bem por que, andava meio apreensiva com o Cristiano.
      -  aquele garoto que veio aqui?
      - Ele mesmo.
      A me ficou pensativa. No queria tirar o entusiasmo da filha. Depois, tomou coragem:
      - Roxane, eu no sei no... mas achei o Cristiano meio estranho.
      - Por qu, mame?
      - L fora, ele recitava poesias... falava de um jeito to bonito... mas aqui dentro, parecia um troglodita!
      - Ele  tmido...
      - Parecia at uma pessoa diferente! Eu no sei, filha... mas como algum pode mudar assim, da gua para o vinho?
      Roxane estava to entusiasmada que nem prestou ateno. S lembrou das palavras da me no encontro do dia seguinte. E como!
      Cirano e Cristiano ficaram horas e horas planejando o encontro. Resolveram que seria embaixo de uma rvore grande, frondosa, que ficava bem no meio da pracinha 
do bairro. Cirano ficaria em cima da rvore, soprando as poesias para Cristiano.
      - E o que eu digo pra ela, quando no estiver recitando?
      - Fale coisas bonitas.
      - Sobre o qu?
      - Sei l... sobre as flores do jardim. Isso, fale sobre as flores do jardim da pracinha.
      Cristiano estava apavorado. Ser que ia dar certo? Mas a paixo era maior que o medo. No dia seguinte, quando foi buscar Roxane, s pensava numa coisa: "Hoje 
a gente se beija!"
      No caminho para a pracinha, ele estava silencioso. Ela estranhou:
      - Que foi? Voc est quieto!
      Ele disse o que tinha combinado com Cirano:
      - Quero fazer uma surpresa.
      Quando chegaram na pracinha, foram passeando at embaixo da rvore. Cirano estava l em cima, de planto, com o caderno aberto. Era fim de tarde, e comeo 
de noite. No dava para enxergar nem um fio de cabelo do Cirano, oculto pela folhagem. Mas Cirano conseguia ler, com o caderno bem perto dos olhos. Quando chegaram 
embaixo da rvore, Cristiano disse:
      - Sente naquele banco.
      Roxane sentou, animada:
      - O que , Cristiano?
      - Decorei uma poro de poesias pra voc!
      No alto da rvore, Cirano comeou a sussurrar. Cristiano recitava bem alto, para que ela no ouvisse a voz do amigo.
      - Vou recitar uma poesia da Ceclia Meireles: "Sonhos da menina!"
      E disparou:
               A flor com que a menina sonha
               est no sonho
               ou na fronha?
               Sonho
               risonho
               O vento sozinho
               no seu carrinho
               De que tamanho
               seria o rebanho?
               A vizinha
               apanha
               a sombrinha
               de teia de aranha...
               Na lua h um ninho
               de passarinho
               A lua com que a menina sonha 
                o linho do sonho
               ou a lua da fronha?
      

      Cristiano parou para tomar flego. Roxane bateu palmas, entusiasmada:
      - Que lindo! Recite outra da Ceclia Meireles.
      - Eu... eu...
      Cirano, no alto da rvore, levou um susto. Tinha planejado outra seqncia! Comeou a virar as pginas do caderno, desesperado... cad... cad outra?
      - Ser que voc no sabe?
      - Eu... eu sei sim...
      Cirano soprou:
      - Diga que est se lembrando!
      - Diga que est se lembrando - repetiu Cristiano.
      - Digo o qu? - estranhou Roxane.
      - Preste ateno, Cristiano, voc vai fazer confuso!
      Mas Cristiano, nervosssimo, nem pensou, antes de repetir:
      - Preste ateno, Cristiano, voc vai fazer confuso.
      - No estou entendendo mais nada - reclamou Roxane. - Que foi que voc disse?
      Nesse instante, Cirano exclamou:
      - Achei!
      Cristiano repetiu:
      - Achei!
      - Achou o qu? - perguntou Roxane, cada vez mais curiosa.
      Mas, antes que ela dissesse qualquer coisa, Cirano comeou a sussurrar e Cristiano a repetir:
               - "Ou isto ou aquilo", Ceclia Meireles.
               Ou se tem chuva e no se tem sol,
               ou se tem sol e no se tem chuva!
               Ou se cala a luva e no se pe o anel,
               ou se pe o anel e no se cala a luva!
               Quem sobe nos ares no fica no cho,
               quem fica no cho no sobe nos ares.
                uma grande pena que no se possa
               estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
               Ou guardo o dinheiro e no compro o doce,
               ou compro o doce e gasto o dinheiro
               Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
               e vivo escolhendo o dia inteiro!
               No sei se brinco, no sei se estudo,
               se saio correndo ou fico tranqilo
               Mas no consegui entender ainda
               qual  melhor: se  isto ou aquilo.
      Quando Cristiano terminou, Roxane ficou em silncio. No alto da rvore, Cirano tremia. Os trs pensavam, nervosos: "O que vai acontecer agora? O que devo fazer 
agora? Isto ou aquilo?"
      "Ser que ela vai abraar Cristiano? Ou vai lembrar das conversas que a gente tinha, e dizer que, na verdade, gosta de mim?"
      "Ser que devo beij-la, de repente? Ou devo esperar que ela fale?"
      "Ser que encontrei o grande amor da minha vida? Devo ficar calada, at que ele me beije?"
      Sem perceber, os trs estavam vivendo a mesma situao da poesia que, de to sbia, serve para muitos momentos da vida. De fato, na vida, quantas vezes a gente 
no pergunta: que devo fazer agora? Isto ou aquilo?
      Roxane foi a primeira a falar:
      - Que bonito, Cristiano... voc me deixou emocionada.
      Se o Cristiano no fosse um analfabeto em questo de gestos romnticos, teria abraado e beijado Roxane. Mas ele estava sem jeito, sem saber como continuar 
a dizer frases to lindas. Roxane estava embaixo da rvore. Cirano ficou em silncio. Cristiano s podia contar com ele mesmo. E disse:
      -  isso a, gata, apreciou o lance? Que tal a gente sair agora e traar um hot dog?
      Roxane ficou muda, paralisada. Como  que ele mudava de jeito assim, de repente? No que no gostasse de gria. S que, a maior parte do tempo, parecia estar 
falando com duas pessoas diferentes. Mas, em seguida, esqueceu as dvidas e se deixou envolver pela emoo. Aproximou-se de Cristiano, sem falar nada. Ele abriu 
os braos, e ela se aconchegou no peito dele. Nesse instante... aconteceu um acidente.

      Ningum  de ferro. Cirano, l em cima, no resistiu, e tentou se abaixar para ver. Seu corao estava apertadinho de cimes. No que ele mudou de posio, 
o nariz enganchou numa forquilha da rvore.
      - Ai! - ele gritou.
      Puxou o nariz e perdeu o equilbrio. O galho vergou. Deu um grito:
      - Ahhhhhh...
      Ficou dependurado na ponta do galho, com os ps aparecendo no meio da folhagem. Roxane gritou:
      - Quem est a?
      Cristiano ps as mos na cabea. Ser que ela ia descobrir tudo?
      Cirano balanou, balanou, mas no teve outro jeito. Saltou no cho. Ficou parado, olhando para os dois, com cara de bobo.
       certo que, nesse momento, Roxane poderia ter descoberto tudo. Era fcil juntar dois e dois. Mas estava to brava, to nervosa, que no pensou. Interpretou 
a atitude de Cirano da maneira mais bvia.
      - Cirano, que horror! Voc estava me espionando! Pensei que fosse mais adulto!






      Cirano tentou falar alguma coisa. Qualquer coisa.
      - Mas... Roxane...  que...
      - Nem mais uma palavra, Cirano, v embora!
      Cirano pegou o caderno que tinha cado no cho (ela nem notou), e foi caminhando, triste. Cristiano, porm, estava mais apavorado que ele. O que falar, agora? 
Como dizer frases bonitas assim de repente?
      - Nunca pensei que o Cirano fizesse uma coisa dessas - comentou Roxane.
      - ... parece que ele tem um parafuso a menos.
      Roxane sorriu.
      - No importa... antes eu adorava o Cirano, Cristiano. Mas depois que conheci voc... tudo mudou. Sabe, Cristiano... quando eu e voc nos encontramos, naquele 
dia... quando eu quase fui assaltada, eu fiquei impressionada, confesso. Voc foi to forte... to corajoso. Mas sabe... s isso no basta... no... para a gente 
ter uma amizade forte... ou at mais do que isso. S que agora... que voc mostrou como ... como  sensvel... eu gosto de voc mais ainda! Mais, muito mais... 
eu gosto mais da sua cabea, daquilo que voc  por dentro do que do Cristiano esportista... do Cristiano
corajoso!
      Cristiano estava mudo.  claro que ele tinha percebido que era uma declarao de amor. S que... a declarao no era para ele. Era para o Cirano. Sim, ela 
tinha se apaixonado pelas poesias... pelos sentimentos... pelo jeito de falar do Cirano!
      Bem, para dizer a verdade, Cristiano no pensou tudo isso de uma s vez. S sentiu um desconforto... uma sensao de que alguma coisa estava errada. Mas ele 
estava to preocupado em dizer alguma frase bonita... e no vinha nada na cabea! Como responder?
      -  uma boa.
      Roxane ficou paralisada. Depois de uma declarao como a dela, esperava que Cristiano respondesse  altura... se atirasse a seus ps... fizesse qualquer coisa. 
Mas ele falou, simplesmente, " uma boa", e continuou parado. Mudo. Os dois ficaram olhando um para o outro, no maior constrangimento. Ento, ele lembrou do conselho 
de Cirano: devia falar de flores. Olhou em volta, nervoso, e viu um canteiro cheio de florezinhas. No escuro, parecia boca-de-leo.
      - Boca-de-leo - ele disse.
      - Eu tenho boca de leo? Que horror! Que gafe! Ele tentou consertar:
      - Desculpa, lindeza. Eu  que tenho boca de leo. No sei, me deu vontade de falar das flores. Olhe as flores!
      - Mal d pra ver o canteiro no escuro, Cristiano! Alm disso, depois de tudo que eu disse, voc vem falar de flores? Voc nem se importa comigo?
      Cristiano bem que tentou:
      - No... eu quis falar de flores porque voc... voc  uma flor, Roxane.
      Ela se emocionou de novo:
      - Flor... que flor?
      Pobre Cristiano... se fosse para mandar a bola diretinho para o gol... ele no teria problema nenhum. Mas estava perdido naquela selva de palavras. Olhou em 
volta, mais nervoso ainda, procurando uma idia... e viu um canteiro daquelas florezinhas que voc deve conhecer: existem de todas as cores, mas a mais comum  cor-de-rosa. 
So quatro ptalas, que formam uma espcie de trevinho colorido, e cujo nome popular, pelo menos na regio onde Cristiano morava :
      - Maria-sem-vergonha!
      Ele disse assim, sem notar, sem pensar. E quando acabou de dizer, j sentiu vontade de cortar a lngua. Mas no teve tempo. Roxane ficou parada um segundo, 
enquanto uma lgrima descia do lado do nariz. Depois, gritou:
      - Bruto!
      Saiu correndo.
      - Roxane! - Cristiano gritou.
      Mas era tarde. Ficou sozinho na praa.
      
      
Cai a mscara
      Voc pode imaginar o dia seguinte?
      Durante o intervalo, Cirano e Cristiano, lado a lado, pensavam em como falar com ela. Por mais que imaginassem, no conseguiam descobrir como sair da situao. 
Nem precisavam. Roxane passou por eles, com um bando de amigas, e agiu como se no existissem.
      Cristiano at faltou ao treino. Foi para a casa de Cirano e os dois passaram a tarde conversando.
      - Eu sou um burro, um burraldo mesmo. Falei a primeira coisa que me veio na cabea! - disse Cristiano. - Mas por que tinha que haver aquele canteiro de maria-sem-vergonha, 
bem na minha frente?
      - Ora, Cristiano, maria-sem-vergonha  uma flor que existe pela cidade toda! O seu problema  que nunca pensa no que diz.
      - Eu j disse: sou um burraldo.
      Cirano pensou um pouco:
      - Burro voc no  no.
      - Claro que sou!
      - No. Se voc fosse, no seria capaz de jogar futebol to bem. De planejar as jogadas... de pensar com antecedncia. Em Cincias, voc tambm  bom. J eu, 
que me dou bem com as palavras, em compensao me confundo todo com a bola no jogo...
      Cristiano refletiu:
      - E... acho que voc se atrapalha com a bola.
      - Sabe o que ? A gente usa a inteligncia para coisas diferentes. Eu penso muito nisso, Cristiano. No mundo em que a gente vive, todo mundo quer ser especializado. 
Como os mdicos.
      - No entendi.
      - Eu explico. Outro dia estava conversando com a minha me sobre isso. O mdico, por exemplo,  superespecializado. Tem otorrino, pediatra... mdico de todo 
o tipo. Mas clnico geral tem pouco.
      
      - Eu sei. Outro dia minha tia estava com uma dor e no sabia a quem procurar.
      - Pois . Todas as pessoas so um pouco assim. Acabam aprendendo uma coisa... uma coisinha s... e ficam contentes com isso. Uma vez eu estava lendo sobre 
a vida do Leonardo da Vinci... j ouviu falar?
      - Acho que uma vez me ensinaram na aula de Histria. No foi ele que pintou a Mona Lisa... aquela que est sempre dando um sorrisinho que ningum entende muito 
bem?
      - Isso mesmo, Cristiano. Mas ele no era s pintor. Estudava os astros... era tambm cientista, inventor... tentou at criar um avio... No deu certo, mas 
tentou.
      - Que tem a ver comigo?
      - Tem a ver com todo mundo. A gente acaba se especializando em certas matrias, e o resto vai levando. Ser que vai ser sempre assim, na vida, Cristiano? Ou 
no seria mais legal, desde j, a gente pensar grande? Por que  que um grande jogador no pode fazer poesias? Ou um poeta tem que ser sempre srio e no pode contar 
piadas? Ou uma cozinheira no pode ser pintora? Por qu? s vezes eu penso que queria saber um pouco de tudo, at
para escolher melhor minha carreira, meu futuro. Estudar... no para melhorar os conceitos ou notas mas... por prazer!
      - Eu? Gostar de estudar?
      - Cristiano... a gente tem que aprender com tudo que est acontecendo! Veja... voc nunca deu importncia s aulas de Portugus... literatura, comunicao 
e expresso...
      - Odeio gramtica.
      - Mas se voc lesse, no digo bastante, mas sempre um pouquinho por dia, no teria dificuldades em achar palavras bonitas. Se soubesse gramtica, no falaria 
errado como um burraldo. Minha me me disse, um dia desses, que o principal da escola no  o conceito que a gente tira... mas o que se usa na vida!
      Aquelas palavras penetraram na cabea de Cristiano. Mas ele no queria falar nisso agora, no... no antes de resolver o problema com Roxane.
      - Cirano, tudo isso que voc est dizendo  muito legal. Mas e agora? Hoje? O que fao?
      - S tem um jeito.
      Cirano, como sempre, tinha outro plano mirabolante. Cristiano deveria mandar um bilhete para Roxane, e convid-la para sair novamente. Cirano escreveria vrias 
frases, para ele decorar e dizer durante o encontro.
      Primeiro, enviaram o bilhete:
               Roxane
               Naqueles dias,
               palavras frias,
               cabea perdida,
               palavra ferida,
                meu corao
               pede perdo.
               Amor to bonito,
               grande, infinito!
                      Cristiano
P.S.: Roxane, voc me inspirou essa poesia e sentimentos ainda mais bonitos. Por favor, venha me encontrar, amanh, depois do treino, na quadra, e eu explicarei 
tudo que aconteceu.
      Cristiano estava entusiasmado. Que bilhete mais bonito!
      - T legal, muito legal, Cirano. S acho que voc no devia escrever que fez a poesia pra ela. Quando ela descobrir de onde voc tirou, vai ficar chato.
      - Eu inventei!
      - Como?
      Ento Cirano explicou. Sempre tinha vontade de escrever poesia. Mas, quando tentava alguma rima, acabava dando errado, como daquela vez que chamou a menina 
de sagi. Nos ltimos tempos, ele vinha estudando, lendo. Comeou a criar rimas comparando com os versos dos outros, estudando as palavras como se fossem notas musicais. 
O resultado j estava aparecendo.
      - Puxa, Cirano... voc  um escritor!
      Em seguida, Cristiano pensou em outra coisa:
      - Mas de onde  que voc tirou essas idias? At parece que voc tambm est apaixonado!
      - Eu?
      - E, Cirano... voc escreveu de um jeito...
      - Deixe de bobagem, Cristiano... mande o bilhete!
      Cristiano copiou e pediu para um amigo entregar na casa de Roxane. No dia seguinte, durante a aula, veio a resposta. No fim de semana, apesar de magoada, ela 
iria ao encontro, para esclarecer tudo.
      - Ainda bem que  s no fim de semana - suspirou Cristiano. -  Assim d tempo de decorar as falas.

      
      Eles passaram todas as noites inventando. Cirano escrevia, Cristiano decorava:
      "O bela musa... tua presena me confunde... meu pensamento vira  neblina".
      Ou:
      "Roxane... tal  a minha emoo diante de tua presena que s um sentimento ocupa meu corao. O amor, Roxane! O amor!"
      Ou:
      "Deixa-me colher a rom dos teus lbios!"
      Cristiano estava exausto:
      - Esse negcio de rom nos lbios  demais.  muito careta, Cirano! Voc tambm no fala assim com as pessoas!
      Cirano pensou um pouco:
      - No... falar no falo. Mas  que voc est decorando um texto, como no teatro. Se voc soubesse o que dizer, normalmente, tudo seria diferente. Voc falaria 
de acordo com seu jeito de ser. Assim... fica um pouco esquisito... mas  o nico jeito de dar certo.
      Cristiano suspirava, suspirava, cheio de nuvenzinhas pretas em torno da cabea. Cirano acabou mudando algumas frases que estavam um pouco exageradas. Depois, 
Cristiano levou o texto para casa e ficou decorando, decorando. O pior, ele sabia, seria conseguir conduzir a conversa, para que ele pudesse responder qualquer pergunta 
com aquelas frases. Pior: sem confundir tudo na cabea!
      No dia do encontro, por via das dvidas, levou as anotaes no bolso.
      Quando Roxane chegou para o encontro, ele estava preparado. Ou quase. Ela entrou na quadra, que estava vazia. Ele sorriu, esperando. Notou que ela estava nervosa:
      - Cristiano... pensei muito antes de aceitar este encontro. Naquele dia na praa, voc estava to diferente que eu pensei... eu pensei que voc fosse louco 
varrido! Voc foi um bruto, Cristiano!
      Cristiano suspirou, fez um esforo de memria, e disse, gesticulando muito:
      - O bela musa tua presena me confunde meu pensamento vira neblina tal a emoo diante de tua presena que s um sentimento ocupa meu corao Roxane o amor 
Roxane o amor.
      S que Cristiano estava to nervoso que falou tudo de uma vez, sem a pausa para as vrgulas, e as frases perderam muito do impacto. Ficaram esquisitssimas. 
Alm disso, ele ficou sem flego.
      - Que est acontecendo com voc? - perguntou Roxane. - Est ficando azul!
      Uau! Ele respirou fundo. E o nervosismo deixava a respirao ainda mais difcil. O que responder? Cirano no havia planejado resposta para aquela pergunta. 
Cristiano fez o melhor que pde: tentou lembrar de alguma frase. Deu nisto:
      - Roxane tal  meu corao diante de teu sentimento que s uma presena ocupa minha emoo.
      Mas falou isso de uma forma to teatral, to dramtica, que Roxane caiu na gargalhada.
      Cristiano suava mais do que no final do segundo tempo do treino. Que fazer diante das gargalhadas? Tentou, pela ltima vez:
      - Teus lbios colhem a rom que me deixam! No, no  isso... a tua rom colhe meus lbios... quer dizer...
      Roxane estava preocupada:
      - Voc est legal, Cristiano?
      - Eu... eu...
      Completamente engasgado, Cristiano no conseguia terminar a conversa. Roxane estava realmente preocupada:
      - Voc est esquisito... no fala coisa com coisa... 
      Ento, quando ouviu aquilo, uma luz brilhou na cabea de Cristiano. Claro, claro! Ele nunca ia falar daquele jeito... ele estava errado o tempo todo, porque 
tinha outra forma de ser! No adianta forar, mentir, quando se gosta de algum. No seria melhor dizer a verdade, simplesmente dizer que no era ele que falava 
assim? Quem sabe, conhecer outra garota e comear do zero do jeito que ele gostava de ser?
      -  isso mesmo, Roxane, eu estou ficando maluco!
      Cristiano disse e provou. Tirou do bolso as folhas escritas com a letra de Cirano e mostrou, corajosamente.

      - Eu no sou do jeito que voc est pensando. Foi o Cirano quem me soprou as poesias. Foi ele que me ensinou a falar desse jeito diferente. Foi ele. Foi ele... 
olhe aqui... cada folha... tudo escrito com a letra dele.
      - Quer dizer que... cada palavra... cada poesia... foi tudo coisa do Cirano?
      Cristiano fez que sim, virou-se e saiu. Roxane ficou parada, com as folhas na mo. Era ele o tempo todo!
      
A vitria dos versos
      Roxane ficou pensando, pensando, um tempo. Quanto mais pensava, mais raiva tinha! Resolveu, ento, ir  casa de Cirano.
      A me de Cirano convidou-a para entrar, mas Roxane no quis. Fez questo de ficar no porto. Quando Cirano saiu no porto, ela entregou as folhas e disse, 
simplesmente:
      - Voc devia ter vergonha!
      - Eu posso explicar!

      Mas, ento, ela falou de um jeito que nem parecia ela mesma: 
      - Quando eu conheci voc, Cirano, fiquei encantada. Nunca tinha conversado com ningum do jeito que falava com voc. Nunca tinha encontrado algum... algum 
por quem eu sentisse tanto carinho. De repente, quando conheci o Cristiano, voc se afastou...  verdade que, quando conheci o Cristiano, eu fiquei emocionada. Mas 
eu nunca, nunca quis perder a sua amizade. Quando o Cristiano recitava as poesias, eu pensava: o Cirano tambm gostava de poesias. Quando ele falava gria, com aquele 
jeito, eu pensava: Cirano nunca falaria assim. Mas, mesmo quando voc caiu da rvore, nunca pude imaginar uma histria to horrvel!
      - Eu... eu achei que voc gostava do Cristiano...
      - Eu gostava das palavras bonitas que ele me dizia. Mas as palavras eram suas, Cirano, no dele! Como pde me enganar assim?
      -  que eu nunca achei que... que algum pudesse gostar de mim... com o meu nariz...
      Roxane ficou furiosa, parecia uma ona!
      - Bobo, voc  bobo! Mesmo quando a gente era superamigos, voc nunca falava de voc. E agora quis fazer piada comigo. Voc sabia que eu gostava de poesias 
e resolveu inventar essa histria s para rir de mim!
      - No, Roxane, no! Eu... eu gosto de voc!
      - Gosta coisa nenhuma! Se gostasse... no teria agido dessa maneira!
      - No, no, milhes de vezes no! Roxane... eu s disse... tudo que sentia. Eu s conseguia inventar as poesias... pensar tudo que o Cristiano ia dizer porque 
estava pensando em voc. Em voc, sim. E ele dizia... as palavras que eu sentia!  verdade...
      - Ento... por que voc nunca me disse?
      - Eu nunca achei que... com o meu nariz... Pensei que voc fosse rir de mim!
      Ela ficou vermelha de to brava!
      - Se voc acha que eu sou to boba, saiba que o bobo  voc. Voc acha que eu sou to... to cabea-de-vento que s enxergo um nariz? No, Cirano, a gente 
podia ter se dado superbem se voc no tivesse uma cabea de minhoca!
      - De minhoca no!
      - Cabea de minhoca, sim! E se, pelo menos, tivesse o corao do tamanho do nariz, voc seria feliz!
      Depois da rima, nervosssima, saiu correndo. Cirano ficou parado, sem ter o que falar. Entrou em casa. A me estava na sala, curiosa:
      - Que aconteceu?
      - Problema particular.
      - No fique se amargurando sozinho, Cirano. Conte.
      -  o meu nariz, de novo!
      Ento, ele despejou tudo. Desde o comeo. A me sorriu:
      - De onde veio essa idia de soprar os versos, escondido?
      - Do livro - confessou Cirano.
      Era verdade. Na pea Cyrano de Bergerac, acontece a mesma coisa. O verdadeiro Cyrano ajuda o amigo a conquistar a namorada, usando frases e versos que ele 
mesmo inventou.
      - Filho, eu sei que voc tem o nariz grande. Como o do seu av.  por isso que ele foi escolhido para interpretar o principal papel da pea. Mas veja, para 
ele, o nariz era uma vantagem. Para voc, est sendo pesado demais! Tanto o nome como o nariz!
      - Mas me, no tem outro jeito!
      -  claro que tem - ela disse. - Muitos problemas da vida so mais fceis de resolver do que a gente pensa.  s olhar de maneira diferente.
      - O que voc acha que eu fao?
      Ela lembrou:
      - A pea termina quando Cyrano morre. S a ela descobre que as cartas bonitas, as palavras emocionantes tinham sido escritas por ele.  muito triste, porque 
ela tambm descobre que sempre o amou. Essa menina est magoada porque voc mentiu para ela. Mas se voc for, com seu prprio rosto, e mostrar que voc ainda  voc, 
ainda  o Cirano com quem ela conversava... o Cirano que descobriu todas aquelas poesias bonitas, talvez ela o desculpe.
      - E meu nariz?
      - Se ela gosta tanto dos seus versos, esquecer o nariz.
      - Voc acha?
      Cirano tomou coragem. Saiu correndo, tomou um nibus, com o corao batendo mais forte do que relgio cuco, e foi at a casa de Roxane. Sem perguntar se ela 
estava, sem se importar com mais nada, gritou:
      - Roxane!
      Ela saiu na janela do quarto, furiosa:
      - V embora, Cirano! Nunca mais quero falar com voc!

      Mas ele lembrou de uma poesia (tinha tantas na cabea!). Era uma quadra do Fernando Pessoa. Disse, simplesmente:
                 Tenho um desejo comigo
                 Que hoje te venho dizer:
                 Queria ser teu amigo
                 Com amizade a valer.
      Roxane ficou mais brava ainda:
      - Chega, Cirano. No quero mais fazer papel de boba. Se voc quisesse ser meu amigo, no teria inventado tanta confuso! Cirano continuou, disposto a ficar 
at amanhecer:
                 Quando chegaste  janela
                 Todos que estavam na rua
                 Disseram: olha,  aquela,
                 Tal  a graa que  tua!
                 Leve sonho, vais no cho
                 A andares sem teres ser.
                 s como o meu corao
                 Que sente sem nada ter.
      Roxane estava derretida. Mas, ao mesmo tempo, tinha uma vontade enorme de bater a janela para no dar o brao a torcer. Enquanto decidia entre isto ou aquilo, 
ouviu-se uma voz:
                 Mais um poeta no jardim.
                 Sempre ser assim?
      Era o pai de Roxane, surpreso, mas divertido. Ele sempre gostara de ler, era homem culto, erudito. Tinha transmitido o gosto  filha. Nada mais natural do 
que ficar entusiasmado, primeiro com Cristiano, e, agora, com Cirano, recitando poesias em seu jardim. "Muito melhor", pensava, "do que deixar minha filha indo passear 
em lanchonete, falando s de novela e fofoca de artista". Sorrindo, o pai aproximou-se de Cirano, que respondeu em versinhos, que lhe vieram  cabea, naturalmente, 
como quem fala durante uma conversa:
                 A culpa por certo no  dela
                 Mas de Deus, que a fez to bela!
      A me e a irmzinha Oflia j estavam aplaudindo. O pai sorriu e convidou:

      
      - Entre, mocinho. Venha comer um pedao de bolo com a gente.
      Roxane sorriu, aproximando-se. Cirano era impossvel!
      Cirano sorriu, empinou o nariz e entrou. Da por diante, a vida tomou novo rumo.
      Mas antes de contar o que est acontecendo com eles, quero falar de Cristiano.
      Toda aquela histria despertou uma curiosidade bem grande em Cristiano. Ele comeou a ler um pouco mais, e foi tomando gosto pela coisa. Hoje em dia, at j 
escreve melhor. Mas no poesias. Reportagens. Ele ajudou o pessoal a montar um jornalzinho na escola. Agora, quando participa de um campeonato, faz tambm a reportagem, 
contando como foi o jogo.  uma tima forma de lembrar da partida, para aperfeioar os lances e evitar os erros no futuro. Alm disso, ele se diverte muito descrevendo 
o juiz, os outros jogadores e at as bobagens que ele mesmo faz em campo. Cada vez que sai um jornalzinho, toda a escola comenta. Tambm descobriu como  gostoso 
se expressar. No importa se  com poesias, reportagens, ou de qualquer outra maneira. Importante  saber transmitir o que est dentro da gente. Para escrever to 
bem, Cristiano seguiu a receita de Cirano: ler bastante, ler sempre... e,  claro, tentar escrever. Porque se jogo se aperfeioa jogando, escrever a gente melhora 
escrevendo. E, por falar em receita, Cristiano tambm arrumou uma namorada. Ela tambm gosta de ler. Mas livros de receitas culinrias! E gosta de execut-las! Outro 
dia, fez um quindo to gostoso que acabaram com ele na mesma tarde. Cristiano devorou quase tudo. Mas Cirano e Roxane comeram o que sobrou.
       isso mesmo. Todos viraram bons amigos. Costumam se ver sempre, e at j foram acampar uma vez junto com os pais de Cristiano - embora,  claro, no comentem 
nunca o desastrado romance entre Cristiano e Roxane. Fica chato, no ?
      Tambm poucas vezes se viu um par se dar to bem como Roxane e Cirano. Vivem trocando poesias e versos. A maioria, so eles mesmos que criam. E tambm trocam 
beijinhos, mas com muito cuidado, seno o nariz de Cirano engancha na orelha de Roxane. Andam sempre to contentes que at pensam em um dia, quem sabe, se casar.
      Mas isso j  outra histria...
      Afinal, na vida, ningum sabe o que vem depois. Muitas vezes tem uma pedra no meio do caminho, uma pedra, ou uma rosa escandalosa, ou sonhos que a gente sonha, 
mas que terminam na fronha. Enfim... tantas vezes a gente escolhe entre isto ou aquilo que nunca sabe o que ser o depois.
      O segredo do amor, como j disse um grande poeta, " que seja infinito enquanto dure". Por enquanto, Roxane e Cirano esto felizes para sempre.
      
      
AUTOR E OBRA
      Hoje em dia vivemos em um mundo onde a beleza fsica  incensada. Revistas, redes de televiso, propagandas, tudo, enfim, exalta a beleza. No vejo mal nenhum 
em ser bonito, ou apreciar pessoas belas. Mas o que me di  que isso se torna, a cada dia, um valor forte demais para apreciar uma pessoa. Freqentemente eu me 
assusto: porque avaliar uma pessoa, bonita ou feia, apenas por suas caractersticas fsicas , em ltima anlise, olhar o ser humano como se olha um bicho de estimao. 
As pessoas tm muito mais a oferecer, e o grande tesouro est dentro delas. Cada pessoa  um tesouro inestimvel a ser descoberto. Apesar de j ter vivido um bom 
tempo, eu ainda me surpreendo com a capacidade que as pessoas tm de criar, renovar e sentir.
      Foi por isso que escrevi este livro. Inspirado na histria de Cyrano de Bergerac, quis, alm de homenagear essa obra mxima do teatro universal, falar tambm 
daquilo que penso: a necessidade de buscar outros valores. No s nos outros, mas tambm dentro de ns mesmos. O que  um nariz diante de toda a imensido de pensamentos, 
sensaes e conhecimento que podemos desfrutar quando conhecemos a ns mesmos e quando nos interessamos de verdade por nossos amigos? Tambm quis falar da beleza 
de uma forma de arte que, atualmente, nem sempre tem merecido ateno: a poesia. Uma boa poesia nos ensina, nos ajuda a refletir, a descobrir novos sentimentos. 
Quando temos afinidade com um poeta,  como se encontrssemos um amigo - seus versos nos dizem coisas importantes. A poesia tambm  bonita por si s. Ao ouvir o 
ritmo dos versos, as rimas, podemos ter tanto prazer quanto ao ouvir uma msica. Mas, como tantas coisas que valem a pena,  preciso aprender a descobrir essa beleza.
      Um pouco de tudo isso  O menino narigudo. Um pouco dos poetas da lngua portuguesa, um pouco do susto de ter um nariz to grande, e um pouco da descoberta, 
que todos ns podemos fazer um dia, de que o mais importante  a beleza que est dentro de cada um.
Walcyr Carrasco


  
